quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Ex corde

O homem de jaleco branco entra na sala.

Está tão frio. Estou tão fria.

Ele não parece ser médico, mas ainda assim usa esse jaleco estúpido.

Está tão escuro, não consigo me mover.

O vejo em terceira pessoa, mas não consigo me ver. Como se não estivesse na mesma sala. Como em sonho.
Ele passa pelas mesas de metal enfileiradas na sala fria e começa a organizar várias ferramentas perfuro-cortantes em uma mesinha móvel, ao lado de uma das mesas.

Agulha de sutura, talhador de costela, enterótomo, cinzel de crânio, pinça dentada, tesoura, serra de osso...

De repente sinto meu corpo se movendo e uma luz branca me atinge forte no rosto e, apesar dos olhos fechados, eu consigo perceber a mudança.
Um zumbido eletrônico penetra meus ouvidos e o vejo me retirando de uma espécie de gaveta.

Sou transportada para uma das mesas de metal e apesar de ter ciência de que as mesas estão geladas, as encontro numa temperatura confortável.

Está tudo tão calmo.

Com a delicadeza de um artista ele manuseia o bisturi e corta meu peito em Y.
Analisa meu corpo como um amante apaixonado, passando os dedos pelo meu pescoço, logo pelo tórax até os dedos do pé. Anota tudo numa prancheta ao lado.

Um a um ele tira meus órgãos e os enfileira na mesa, cada um com sua anotação.

Coração grande. Ligeiramente leve. Aparência velha e cansada. Cicatrizes indicam ferimentos anteriores.
Pulmões escurecidos. Tabagista compulsiva, ansiosa e depressiva. Estrias sugerem que sofria de falta de ar.
Estômago. Análises internas mostram borboletas e bile, contradizendo-se em euforia e amargura.
Fígado sobrecarregado por abuso de álcool. 


Ele retira e analisa todos os órgãos restantes e não encontra nada anormal. Os coloca delicadamente de volta e eu me comovo com o carinho dado a cada um deles.

Montada como um quebra-cabeças com perfeição, ele parte para meu crânio e retira a tampa, expondo meu cérebro.

Cinza. Cansado. Morto.

O retira para análise e conclui a causa mortis.

Amava de mais. Pensava de mais.
Afogava-se de mais em afetos.
Machucava-se com as dores do mundo.
Carregava depressão sobre os ombros.
Via o mundo pelos olhos de uma criança.

Morreu de amor e desgosto.
Morreu chorando.
Morreu humana.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

O pato

Engraçado isso, né moço.
Umas cervejas, uma música e um comentário antigo seu pra acabar com a minha existência.

E eu aqui, boba, achando que estava feliz, pra cima, hoje. Justo hoje. Justo quando eu começo a sentir o gostinho da euforia... você me invade.

Sem permissão, sem por favor obrigada volte sempre, você me invade e me enoja com toda essa doçura que não é mais direcionada a mim. Que você disse que não ia mudar. Que você disse que era eterna. Que amargou.

Boba eu de acreditar em promessas de mortais. Tão efêmeras quanto quem as verbaliza. Pó, tudo pó, moço. E se eu pudesse ainda ter uma brisa desse pó, moço, eu juro que eu enfileirava e cheirava tudo. Esse é o vício que você criou em mim e não teve a coragem de manter.

Juro que só precisava da sua amizade. Do apoio moral. De saber que você estava alí e não virando a cara pra mim toda vez que cruzávamos o caminho e evitando a cozinha quando ouvia movimento na sala.

Moço, você que toma conta dos meus pensamentos e me embrulha o estômago toda vez que eu bebo o suficiente pra olhar pra esse buraco que você deixou no meu  peito, mas não o suficiente pra ignorá-lo e continuar rindo, fingindo ser feliz.

Eu cansei de fingir, moço.

Você deve tá aí, com seus problemas de moço saudável classe média-baixa que quer enriquecer e mamar nas tetas do capitalismo o quanto puder. Você, que não tinha nada a ver comigo a não ser um taste-o-meter no last.fm.

Você que me viu crescer, que me aconselhou, que ouviu meus prantos e secou as minhas lágrimas mesmo tão longe.

Que me viu fugir. Duas vezes, moço. Duas vezes me viu fugir e voltar com o rabo entre as pernas e pedir mil perdões e me martirizar a vida toda por ter feitos as escolhas que fiz. Mas, diabos, eu era só uma criança!

Talvez eu ainda seja uma criança, moço. Uma criança com um buraco enorme no peito.
Que impede meu sono e me faz parar a meia noite e meia, um tanto quanto bêbada, e exorcizar esse demônio pra conseguir tirar um cochilo.

Você, moço, que me ofereceu o mundo.

Eu só queria a sua amizade.

Agora eu quero é que tudo se exploda e que todo mundo se foda.

Porque a vida é assim: não faz sentido.
Nada faz sentido.
E não faz sentido eu tentar dar sentido, estabilidade, pra algo tão efêmero e passageiro quanto um amizade.

Entendo que o erro foi meu, moço. Mas sabe como eu sou: não tenho controle.

Alimentou o monstro, soltou a coleira e fugiu pra não ver o estrago.
Quem paga o pato sou eu.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

642.54


Como é que a gente começa essas coisas, hein?
Na escola aprendi a escrever cartas, mas, bem... Elas sempre tinham um destinatário.
Começavam com o lugar e a data de onde escrevia e, bem... Não sei onde estou e nem que dia é. Acho que é Março.

Algum lugar no oceano, algum dia do mês de Março (talvez) de 2014.

Querido destinatário,

Cheguei à conclusão de que não tenho mais esperanças de deixar essa ilha.

A ilha, apesar de muito bonita, é escassa de recursos dos quais eu possa usufruir.
Por exemplo, ontem comi dois cocos e um punhado de amoras. Eu poderia até caçar, mas... Bem, eu não sei caçar e muito provavelmente seria morta pelos animais selvagens.

Água é outra coisa muito complicada por aqui. Deve haver algum riacho lá pro meio da mata selvagem, mas, como expliquei anteriormente, tenho medo dos animais. E toda a água que cerca a ilha é salgada. Eu até criei um sistema para coleta de água de chuva, mas faz três dias desde a última chuva e minha reserva se esgotou.

Os insetos aqui são o pior! É cada borrachudo graúdo que você não tem noção. E é claro que não tem repelente. Eu até aprendi uma vez a fazer um repelente natural com cravos, mas, não tenho cravos aqui comigo.

Fora todo esse pessimismo a ilha é muito bonita, a vegetação aqui é bem diversa e, como todo mundo que me conhece sabe, eu adoro verde.
É realmente muito prazeroso observar as ondas cristalinas do mar, a areia tão branquinha que chega até a refletir o sol e machucar os olhos. Se banhar na água morna sob o sol quente e depois ir descansar numa sombra criada pela vegetação fria. Sabe, é quase um paraíso.

Mas... Estou sozinha. Estou quase no nível dO Naufrago criando um amigo imaginário pra conversar comigo. Se bem que, todas essas cartas que eu envio não passam de uma desculpa esfarrapada pra conversar com um destinatário invisível.
Não há animais domesticáveis por aqui, então não posso nem contar com essa. Seria menos vergonhoso conversar com um macaco, ou um porco, sei lá, do que com um coco. 

Enfim, eu converso com o papel.

Sorte minha ter trazido tantos cadernos e algumas canetas. E olha que eles nem ficaram tão danificados pela água. O meu azar são as garrafas, que eu tenho que esperar pela boa vontade do mar me trazer. Mas eventualmente elas vêm e aí eu escrevo e envio de volta.

Eu vivia uma vida bem simples antes de vir parar aqui, sabe? Mas bem monótona também. Eu trabalhava, estudava... Sabia que eu estudava psicologia? Legal, né? Pena que não é muito útil sozinha numa ilha deserta... Enfim, estudava, de vez em quando praticava algum exercício, escrevia... Ah, eu tinha até um blog! Um blog que eu odiava, com certeza, e também ninguém lia... E, bom. Essa era minha vida. O que eu mais gostava eram meus amigos. Não tinha muitos, assim, verdadeiros, sabe? Mas adoro conhecer gente nova.

Caramba, até me esqueci. Prazer, meu nome é Cat. Catarina.

Parece até que eu vivia essa vida cíclica de obrigações de gente grande e era tudo tão chato, monótono, monocromático... Mas meus amigos estavam lá pra me tirar do ciclo e colorir um pouco minha vida. Sinto a falta deles...

Eu estava numa fase da vida em que eu queria conhecer o mundo, viajar! Fui fazer um cruzeiro e, bem... Já dá pra ter uma ideia do motivo d’eu estar numa ilha deserta.

O engraçado é que a gente quer sempre se livrar da rotina de gente grande, mas, quando você está num lugar paradisíaco, sem obrigações, sem gente chata, sem... ninguém. Você se sente tão sozinho que dá até vontade de voltar praquela rotina chata, só pela interação humana.

Será que todo mundo se salvou? Será que todo mundo morreu?
Será egoísmo meu desejar que pelo menos uma daquelas centenas de pessoas tivesse ficado aqui comigo, na ilha?

Bom, de qualquer forma. Obrigada por conversar comigo.
Quando tiver um tempinho, me escreva de volta. Vai que, né? Nunca se sabe.
Ou até melhor, venha me visitar.
Até logo, querido destinatário.
Foi um prazer te conhecer.

Cat.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

642.108

Viva Discodia!

Ela carrega desordem em seus véus roxos.
Vestido esvoaçante, mangas compridas como seus braços.
Cabelos brancos e pele cor de céu, negro. Cheia de estrelas.

Por onde passa, deixa marcas de confusão.
Pervertida, perversão.
Perverte a ordem e se delicia de sua infinidade.

Ela sou eu, quem é ela?
Oras, nem ela mesma sabe responder.
Ela é o caos.

642.83

Rosto fino, recheado de barba grossa, preta.
Boca delineada, lábios beijáveis.
Sorriso grande, mostrando todos os dentes.
Cabelo enroladinho, que eu adoro gentilmente passar meus dedos por.
E aqueles olhos...

Aqueles olhos que eu só fui reparar numa tarde de ressaca, nós dois na sacada a fumar o que nossos pulmões já não aguentavam. O sol de um domingo calmaria, pós tempestade, contraindo pupilas e aquecendo o corpo com vida.
Você sabe que eu não consigo olhar pros olhos.
"Os olhos são a janela da alma" já dizia o ditado, talvez eu tenha medo de almas.


Almas profundas, almas rasgadas, almas perdidas.
Cheias de demônios, pretas, em decomposição.
Ou simplesmente quebradas.
Como a minha.

Mas naquela tarde, você estava distraído. Você, que sempre segue meus olhos pra onde quer que eles forem, estava distraído olhando a paisagem burguesa do condomínio de apartamentos de nosso amigo em comum.
Imagino o que passava por sua mente. 
Mas só imagino, mesmo. Você sabe que não sei descobrir essas coisas.

Quando olhei pra você, rosto de perfil, iluminado pelo sol e marcado de neon da noite passada, vi seus olhos.
Pequenos olhos.
Pequenas janelas para a alma mais bonita que já me tocou.
Olhos com pupilas minúsculas.
Olhos cor de mel.
Que esverdeiam quando inundam.
Transbordam.

Amor.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Criança

Criança mal-educada.
Nem sabe se comportar.
Vá pra lá brincar quietinha.
Deixe os adultos conversarem.

Criança malcriada.
Perdeu de vista, é arte!
Esconda todos os brinquedos!
Esconda os objetos de valor!

Criança mal-amada.
Tua mãe não te ensinou modos, não?
Faz birra e foge de beijos.
Não sabe nem cumprimentar.

Criança malquista.
Ninguém te quer por aqui.
Você só vem para causar discórdia.
O caos emana de você.

Criança maltratada.
Divorciou-se da família.
Disse adeus aos opressores.
E foi viver sua vida.

domingo, 10 de agosto de 2014

Nena

A musa de meus versos de outrora, faz-se agora poetisa.
Ela mesma. Ela musa. Ela poetiza.

O Alegorista

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Ritual

Entre taças de vinho e cigarros, a saudade dos seus braços.
Meus dedos pelo seu pescoço.
O arrepio por sua espinha.

Os apelidos carinhosos, nosso lugar mais bonito.
O ritual para o beijo: bochechas, nariz e boca.
Meu sorriso bobo te faz rir.

A falta da sua presença me machuca.
Mas sou masoquista, a dor me fortalece.
Sou sua pequena, não esqueça.

Nos encontraremos quando o pôr-do-sol encontrar o mar.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Tálassa & Luna

A lua refletida nos seus olhos castanhos nos observa com sua infinita sabedoria.
Eu mergulho em vocês duas e tento não me engasgar enquanto bebo do seu mar.
Em troca, você me desidrata.
Eu choro lágrimas doces e você me pergunta o que há de errado.

Meu bem, a única coisa que não está certa é essa distância entre você e meus braços.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Where the wild things are

Afinal, onde estão os monstros?
Nos outros?
Em mim mesmo?
Em lugar nenhum...
São os detalhes que nos derrubam!
São os detalhes que nos matam!
São os detalhes que nos devoram...
Na lágrima, o sinal de amor;
No sorriso, encontra-se a dor;
No beijo de boa noite, a certeza da solidão...
Corra para casa...
Corra...
É hora de dormir.

O Alegorista

domingo, 20 de julho de 2014

Incendere

Embriagada pelo incenso que emana de sua pele, entrego meu coração como oferenda.
Faço da nossa cama um altar e clamo por Afrodite.
Tua cabeça descança em meu peito e meu coração mal pode se conter.


Enquanto afago seus cabelos cacheados, cor de mistério, a fumaça leva nossas preces aos céus. 

Somos eternas, meu amor.
As estrelas são testemunhas.

Menina-mulher

"Tens razão; não sou uma menina normal... Sou uma mulher extraordinária."
Disse, em tom firme, porém melancólico, como se tivesse levado muito tempo para ela se dar conta disso.

Como se o processo não tivesse sido natural, gradual.

Disse como se as palavras saíssem rasgando de seu âmago, queimando o esôfago e amargando a boca. 

Disse em tom de quem sabe o que está dizendo; de quem toma consciência de sua condição de mulher extraordinária e aceita com isso toda a carga que o título carrega em si.

Disse com voz firme pois sabia do que estava falando, a melancolia somente confessava toda a sua trajetória conturbada.

E não, isso não queria dizer que ela era de alguma forma melhor ou pior que os outros. Queria dizer que ela tinha sobrevivido; que apesar das expectativas do destino e da realidade que a vida havia reservado para ela, ela tinha triunfado, sobrevivido, perdoado a si mesma e renascido.

De menina a fênix, de repente mulher. E, ah! que mulher...

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Amor em preto-e-branco

A falta do giz para deixar nossas marcas.
A pena com tinta vermelha rabisca o papel.
A escrita necessária para gravar a noite profana.


Antes de tudo, devo dizer: Orgulho!
Exatamente o que sinto por vós, meus amores.
E para todos os rótulos que exige nos dar.

Bixa. Passiva. Destruidora. Puta. Vadia. Pervertida.

Emergências físicas de nossa alma dionisíaca.
As tatuagens queimadas em nossos corpos.

Corpos que se entrelaçam para dormir.
Cansados que no momento afagam por carinho.
Para todo contato em que há calor humano.

Em laços de nós que sobram braços e abraços.
Encaixando peças de formatos improváveis.
Formando o trisal bonito que nós somos.

Veja bem, meus amores.
O Bruno é bobo.
Mas isso vocês já sabem.

Basta!

Já não quero juras de amor eterno.
Não me peças para que eu seja o teu mundo.
Saibas que o amor em mim transborda.
Por favor, entenda-me, não te afogues.

Eu posso te dar amor, afeto e carinho.
Dormir ao teu lado para nos esquentar.
Eu posso ser seu parceiro: na rua e na cama.
Beijar tua boca, tua nuca e teu corpo.
 

Leves parte de mim para quando tu fores.
Saibas que és livre para partir e voltar.
Não há gaiola que nos prenda aqui e agora.
O céu está aberto para quando quiseres voar.

Perceba.
Eu sou você!
Mas, também, sou nós e os outros.


Compreenda.
O Bruno é bobo.
E sim, ele serve para ser namorado.

O Alegorista

domingo, 13 de julho de 2014

Aquele abraço...

Se há algo para recordar,
Que seja o primeiro beijo.
O primeiro beijo do primeiro amor?
Não! O primeiro de cada amor vivido.

Efêmero, passageiro, violento, singelo.
Promessa, ansiedade, expectativa.

Um beijo por amizade, delicado e cuidadoso.
Um beijo por desejo, o corpo contra a parede.
Um beijo por necessidade, a carência de contato.

A sensação do beijo e o sorriso que se abre.
Guardado no rosto a beleza do riso do olhar.
Um breve momento a sós no caos da multidão.

Eu amo você!
Vós a quem agora eu recordo.
Eu me esqueci de todos os mínimos detalhes.
Porém, ainda tenho tantos pequenos sentimentos.

Lembro-me de nosso primeiro beijo.
Lembro-me menos de nosso último.
Guardo em mim o nosso momento.

Pode ser clichê tudo o que escrevo agora.
Mas, o Bruno é bobo, não serve para ser poeta.

O Alegorista

sábado, 12 de julho de 2014

Meretriz Vampira

Acordo relutantemente, sem lembranças da noite passada.
O corpo doído, arranhado, exausto.
Gosto de tequila na boca, gosto de cigarros filtro vermelho, gosto de sexo.
(Onde estava com a cabeça? Só fumo filtro branco!)

Sento no sofá-cama, onde estou?
A mão esquerda vai instintivamente para o lado e sinto o calor de alguém que acabou de sair.
Quem seria? Será que estou imaginando coisas?
Não, essas marcas de batom no meu pescoço servem de prova suficiente.

A garganta seca grita à água.
A cabeça lateja minha impulsividade.
As mãos e joelhos tremem minha ignorância.
E meu coração bate a saudade de você.

Meretriz Vampira, suga toda minha energia vital.
Mas não o faz sem consentimento, sou masoquista, admito.
Me perco em suas curvas sinuosas e em seus cantos duros.
Me usa como se sua vida dependesse disso e me descarta no dia seguinte.

Acabo sozinha num apartamento desconhecido.
Não repara a bagunça do meu coração.
É que você sabe como mexer comigo.

Para Nós

A vida é a arte do encontro.
E dos cafés não-concretizados.
E das cartas não recebidas.

Apesar dos pesares, o que mais importa é o sentimento.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Amanda, do contra

Prazer, sou Amanda, do contra.

Sou ingênua, sou cabeça-dura.
Teimosa, exibicionista, orgulhosa.
Dou coices de ferradura.
Me transformo feito mariposa.

Não aceito suas regras.
Não acredito no perigo.
Esfrego minhas têmporas,
E pulo em direção ao abismo.

Sou bicho livre, indomável,
Imprevisível e marrento.
De determinação inestimável,
Se tentar me prender, arrebento.

Dizem que é rebeldia,
É fase, vai passar.
Continuo causando discórdia,
Não adianta reclamar.

Enfio dedo na tomada, me penduro no lustre.
Se você me diz sim, respondo com não.
Sou extraterrestre, não reclame:
Senão...

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Sobre apelidos carinhosos dados às mulheres, linguagem sexista e 1984

É verdade que algumas mulheres se sentem bem em receber apelidos carinhosos – os chamados “pet names” – mas eu gostaria de oferecer outra visão sobre esse ato, a visão de quem não gosta de ser tratada dessa forma.

Contextualizando, vivemos em uma sociedade patriarcal que tem como característica marcante a dominação do sexo masculino sobre o feminino, em inúmeros campos (sexualmente, profissionalmente, socialmente, politicamente, economicamente etc.).

Não há como discutir que a linguagem é uma poderosa ferramenta.
Em 1984, escrito por George Orwell, a língua como uma ferramenta opressora e restringente é claramente ilustrada pela Novilíngua.
Em suma, a Novilíngua é uma linguagem que estava sendo criada, mas ao contrário da criação de outras linguagens onde se criam palavras, o objetivo do governo era destruí-las. Queimando a ponte entre pensar e fazer, limitando o vocabulário com o tempo se limitaria o pensamento. (Rápido, tente pensar em uma cor que não existe!)
Esse trecho retirado do apêndice de 1984 ilustra bem o propósito da Novilíngua:
“O propósito da Novilíngua não era apenas fornecer um modo de expressão para a visão de mundo e hábitos mentais próprios aos devotados à Ingsoc, mas fazer todas as formas de pensamento impossíveis.”
Em Linguagem e História: a manipulação do passado através da palavra
em 1984 de George Orwell, Anderson coloca:
“De todos os processos repressivos usados pelo Partido, talvez seja a Novilíngua o mais abrangente. Ao influenciar o aspecto cognitivo da população, o Partido pretende restringir o que um indivíduo é capaz de enunciar e, por conseguinte, não conseguir construir um raciocínio lógico sobre aquilo que não consegue comunicar. Assim sendo, o projeto da Ingsoc que tem a ortodoxia como regra fundamental, afeta não apenas a linguagem como instrumento de comunicação, mas a própria realidade que é comunicada no processo da fala e escrita.”

Deu pra entender que a linguagem é uma ferramenta que pode ser usada para tanto para abrir novos horizontes, como para cercear outros, não?
Pois bem, o fato é que nossa linguagem é sexista.

Ticiane, do Blogueiras Feministas, coloca:
“Segundo Mikhail Bakhtin, temos a “influência da cultura sobre a linguagem, com a ação da linguagem sobre o desenvolvimento da cultura”“. O que é de certa forma preocupante, porque caso não venhamos a nos empoderar das palavras este ciclo pode nunca ser quebrado, pois é através delas que pensamos.
(...)
Essa “regra geral” gramatical, de que o plural é masculino, contém mais uma característica que considero perigosa. É uma regra que pressupõe sermos todos iguais, mas não somos e sabemos disso. Mulheres ganham menos que os homens. Somos, em maior número, vítimas de violência doméstica. Convivemos com jornadas duplas e triplas, além da divisão sexual do trabalho. Porque, os filhos, literalmente, são da mãe!
(...)
A Cia Kiwi de Teatro, com a peça Carne – Patriarcado e Capitalismo, faz uma análise fantástica sobre a violência de gênero, mostrando, inclusive que a flexão de gênero de determinadas palavras nem sempre conota a mesma coisa, muito pelo contrário:

“Homem Público: homem que ocupa um papel social importante; Mulher Pública: Puta!
Vadio: que não faz nada; Vadia: Puta!
Atirado: Disponível, impetuoso; Atirada: Puta!
Atrevido: Ousado; Atrevida: Puta!
Um qualquer: fulano, beltrano; Uma qualquer: Puta!””

Sim, nossa linguagem é sexista e oprime as mulheres cotidianamente sem que (quase) ninguém se dê conta.
E um dos meios é o “apelido carinhoso”.

Primeiro que metade deles se refere a minha suposta “beleza” e eu, ao lado de várias outras mulheres, detestamos ser lembradas que estamos sendo avaliadas por quão “bonitas” somos. É quase como dizer “Boa garota, você está dentro dos padrões que os homens gostam e criaram para você, agora tó aqui seu biscoitinho!”.
Ainda mais quando esses “elogios” são precedidos de pronomes possessivos.
Minha. MINHA. MINHA.
Eu sei, eu sei, a tia Amanda tá sendo “radical de mais”. Pronomes possessivos servem também para indicar relação, quando você diz “minha mãe” você não tá querendo dizer que você POSSUI sua mãe, NE? NÉ???
Só que é essa a sensação que me passa. Desde um completo estranho ou um amigo me chamando de “minha linda” o que me passa na cabeça é que daqui a pouco eles vão me chamar de boa garota e me dar um biscoito.

Aí vêm os apelidos infantilizadores. Ah céus, os apelidos infantilizadores.
Mocinha, lindinha, docinho, florzinha, gatinha, queridinha... INHA. PARE! Eu não faço parte das meninas superpoderosas, ok?
Pare de usar diminutivos ao se referir a mim. Simplesmente pare.

Esses “apelidos carinhosos” ajudam a reforçar todos os estereótipos negativos atribuído às mulheres, como “meu anjo”, “minha rainha, “princesa” etc.
Não somos seres frágeis, não nos coloque num pedestal, não somos rainha, princesa, anjo. Não somos símbolos de pureza imaculada. Somos seres humanos.

Por favor, reveja A QUEM você se refere e com QUAIS TERMOS.
Sua namorada não liga? Ok. Sua mãe acha fofo? Tá bom.
Sua funcionária ou colega de trabalho provavelmente vai achar muito rude da sua parte.
A completa estranha na rua também.
A mulher que você acabou de conhecer pode te achar um completo babaca por isso também.

Por favor, antes de falar, PENSE.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Habituada

O mundo dorme, eu estou aqui.
Tentando descobrir o porque de as horas passarem tão rápido e ao mesmo tempo; tão devagar.
Tentando manter esse corpo vivo, essa alma em controle, o mundo inteiro e a terra girando em torno dela mesma e do sol ao mesmo tempo.

O que você sente ao acordar? O que pensa ao deitar?

Seis horas passaram como espírito, sem aviso, sem marcas a não ser a leve enxaqueca. Meio dia. Perdi a noção de tempo. Meus dias estão sendo contados em comprimidos de Rivotril e ainda assim, estou aqui me perguntando porque teimei em não tomar ele hoje.

Quem sabe um banho quente não ajude? Uma hora depois e eu estou sentada na mesma posição, abraçada aos joelhos, chorando sem saber o porque e sentindo que não faço juz à palavra vida. Algumas pessoas sabem o que é sentir que seu corpo não os pertence. Que seu corpo é uma piada cruel que deus resolveu pregar em você. Que você diz que está sem fome quando na verdade está tentando se punir por ser o que é.

Uma hora de portas, janelas e olhos fechados. Os pensamentos correm livres... Perigo. Ao levantar, a sensação de que a terra está te puxando pra baixo de novo; como se o outro mundo estivesse reclamando aquela alma morta que insiste em se alojar em um corpo vivo - quebrado, doído, moído; mas vivo. Pele marcada pelo vermelho da água quente, pra purificar.

Esfrego o espelho com a manga esquerda da camiseta. Espelho, espelho meu? Nenhuma resposta, só a mesma cara pálida e patética de sempre. A cara que não me pertence.

Se me oferecessem um estoque vitalício de morfina ou felicidade em seu mais puro estado pro resto da vida, sinceramente, não sei qual escolheria.

Estou cansada de parasitar esse corpo, mas a alma não quer sair de teimosa, de acomodada, de...
Habituada.

Cansei de ser cansada.
O mundo acorda e eu continuo me perguntando por que diabos ainda estou aqui. Não existe saída fácil.

Gelado

Por cada refeição regurgitada;
Por cada transa mal dada;
Por cada cara lavada;

Por cada marca deixada;
Por cada palavra gritada;
Por cada carta rasgada;

Por cada parte quebrada;
Por cada noite acordada;
Por cada morte arquitetada;

Por toda vez, enganada;
Por todas as portas fechadas;
Por todas as esperanças abandonadas;

Eu choro.
E nesse mar agridoce me deixo afogar, como se assim pudesse afogar também todas as mágoas criadas com o passar dos anos.
Não. Não posso.

Soluço, engasgo, salivo.
Torço pra esse ser meu último suspiro.
Torço para essa ser minha última noite, sentada no piso do banheiro, lavada por água escaldante, cheirando a cloro e lágrimas. Nua, crua, rasgada, mal-amada.

Não, essa não é a saída mais fácil. É a saída mais rápida.
Não é fácil olhar seu reflexo no espelho e só ver casca – parte da máscara que você tanto usa para disfarçar essa sua angústia de viver sem estar viva.

Saia, alma perdida!
Se renda, vencida.
Este corpo maltrapido já não te serve mais.
O coração ainda bate, verás, no entanto...

Gelado.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Tree Food

Acordo de meu breve torpor. O que vem a minha mente? "Só mais 3 comprimidos..."
Por mais masoquista que eu seja, não suporto os abusos da vida. E a única palavra de segurança é: morte.
Esse abuso não deixa marcas físicas, não há como denunciar.

Você está sozinha nessa, ninguém pode te salvar.

A vida continua. 

Quer dizer, o tempo continua, o tempo passa, o tempo voa. Não, não temos todo o tempo do mundo.
A vida tá lá, parada. Paradinha vendo seu corpo apodrecer e sua alma murchar.
A vida tá na dela, de boa, procurando oportunidades pra te passar a perna.

A vida é uma vaca.

E qual  propósito sádico de tudo isso? Nenhum.
O plano é aguentar até que seu corpo apodreça completamente e sua alma morra de uma vez, para ser enterrado e entregue às minhocas. Comida de árvore.

O plano é divertir os deuses.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Amor

Sou feita de amores.
Amores perdidos, amores vividos, amores amados.
Me apaixono todos os dias. Em todas as esquinas.
A Amanda é boba, não serve pra ser amante.

Amo muito, amo todos e amo intensamente - cada um de um jeito peculiar, único.

Eu amo segurar sua mão e conversar.
Amo o beijo na testa, na bochecha.
Amo o abraço carinhoso.
Amo o "eu te amo", o nosso "eu te amo", não o da sociedade.

Amo muito, muito mesmo.
Amo tanto que esqueço de uma coisa muito importante:

Amar a mim mesma.

Transbordo amor e não sobra pra mim.
Ás vezes acho que é defeito, às vezes; consequência.

De qualquer forma, continuo morrendo de amores todos os dias.
Dá pra amar alguém que você nem conhece? Eu respondo, dá e muito. 

Eu amo você, por favor, ajude-me a amar a mim mesma.
Você acredita no amor veradeiro? Acredito. Todos meus amores são de coração, portanto, verdadeiros.

"Enquanto o desejo for mútuo e ambos estiverem disponíveis."

Enquanto for livre.

sábado, 21 de junho de 2014

Patético

Quão patético.
Eu sozinha, naquele apartamento assombrado.
Perturbada. Em pânico.
Pensando em cortar a rede de segurança e pular da janela. 
Estúpido, moro no primeiro andar. Não adianta.
O que, então?
Deitada na cama, lâmina na mão.
Alívio instantâneo e então pânico.
Eu de pijama, tarde da noite correndo pro hospital.
Sozinha.
Três horas de espera pra ser atendida e eu lá, chorando, soluçando, segurando meu braço e pensando em tudo. Tudo ao mesmo tempo. Eu queria fugir.

Seu irmão voltando da faculdade, coitado, foi lá e ficou comigo. Ele não sabia o que fazer, mas ele foi forte. Nem sei se o agradeci o suficiente. Obrigada, obrigada.

E o medo de te ligar, de te encontrar naquele apartamento estúpido. 
Coitado do pessoal, chegando lá e vendo a bagunça que deixei. Óculos quebrado no sofá, papéis com sangue pela casa toda. Tudo revirado. Assim como eu.

Você foi lá no hospital. Frio.
Eu não tinha onde enfiar minha cara. Dava vontade de arrancar os pontos um a um.

Te assustei, não? Pois é. Gente como você não tá preparado pra lidar com gente como eu. Te afugentei. Você se afastou.

Talvez pensasse que estava fazendo bem em se afastar. Talvez se culpasse.
Mas sabe de uma coisa? Você fez tudo errado, desculpa, mas fez tudo errado.
Você fez o exato oposto do que precisava ser feito. Eu precisava de você.

Não estendesse a mão se fosse pra recolher no último momento.

Covardia.

Em manutenção

Dois anos se passaram.
Na verdade, um ano - se contar a partir de quando me dei conta.

Dezenove anos se passaram e eu ainda sou a mesma garotinha assustada que quebra ou perde tudo que toca.
O assustador é quando você para pra pensar e percebe que isso define a sua vida toda.
Fala sério, como não se sentir quebrada?

Depressão. Depressão. Depressão.

Você tem certeza? Tenho. Respiro isso.
Mas você, você que além de fugir me quebrou.
Quebrou feio.
Quebrou o que eu achei que não dava pra quebrar.

Aí você vem e me reclama da vida. 
Gente, será que dói tanto me pedir desculpas? Não sei nem se é desculpas se eu quero. Eu quero gritar.
Quero quebrar de volta.
Quero sentar no chão e chorar porque sei que não adianta, nada adianta, já foi, já passou, já quebrou. Não há cola quente, super bonder, silver tape que resolva.
Você era tudo. Tudo.
Você reclama do seu Yoga semanal ou da sua revista de negócios que não chegou e das suas expectativas e realidade da sua família que apesar de não ter todo o dinheiro do mundo te deram todo o amor do mundo. Você teve uma infância saudável. Uma adolescência bacana. Pelo amor de deus, você não sabe o que é ter uma dor de cabeça. Você não sabe o que é sentir que não tem lar. Se sentir órfão. Quebrado, largado, sem esperanças, rejeitado. 
Meu filho, você é o filho brilhante. Favorito da vó. Sua vida é de se invejar.
Eu tô tremendo só de escrever isso. 
Por que eu achei que você podia me consertar? Por que eu achei que essa loucura daria certo?
Por que eu achei que você não iria me abandonar? Ou que tinha um limite, não sei, me dissesse. Três vezes é de mais, Amanda, não dá. Já perdoei duas.

Você nunca me entendeu. Você nunca me enxergou e viu minha essência quebrada.
Não sei o que te chamou a atenção, mas me usou até quando se entediou.
Eu não precisava do seu amor, mas precisava do companheirismo.

Vai lá, reclama da sua crise existencial.
Eu reclamo aqui do vazio que você criou. Nem deixou, não. Criou.
Você segue sua vida.
A minha tá aqui, estagnada. Parada. Quebrada. Em manutenção.

Dois anos, cara. Se somar, são seis. Seis anos de vida perdidos pra esse monstro de sombras que me segue por onde vou, me arrasta e me sussurra coisas horrendas quando ninguém tá olhando.
Você não podia me salvar. Ninguém pode.
Mas não precisava abandonar. Isso não.

Nem sei se tudo isso faz sentido. Nem sei o o que sentido é mais. Faz tempo que perdeu significado. E tô postando assim mesmo, confuso e sem edição porque é assim que tô me sentindo. Deitada aqui, chorando até molhar minha camiseta toda. 

Não sei o que eu espero de você. Não sei o que deveria.
Não sei se quero ouvir desculpas da sua boca. 
Só sei que a bagunça foi você quem fez, então você que limpe.

Sem reclamar.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Sobre olhos e espelhos quebrados

Meus olhos são muito bons. Minhas palavras, já nem tanto.
Te enxergo a alma, mas não sei te descrever.
Sinto tua aura, mas não sei apontar qual é.


Você tem seu espelho, seus olhos e suas palavras que são todas muito boas.
Meu espelho é distorcido.
Por meio dele, enxergo você.
Quando olho pra ele, não vejo ninguém.


Quem sou eu?


Carta pra quem?

Engraçado como eu sempre começo essas cartas sem apresentação.
Me desculpe, esse é meu jeito.
Chego abrindo portas, janelas e gavetas. Tiro o tênis e sento de pernas cruzadas no sofá, pergunto o que há pra comer.
Dizem que o lar é onde o coração está.
E o que acontece se eu estou no seu coração?
Você acha que eu deveria ser mais cuidadosa com meu approach?
Eu faço mesmo uma bagunça por onde passo. Veja meu quarto, veja seu coração.
Qual será meu propósito nesse mundo? Todo mundo tem uma habilidade, não tem?
Acho que minha habilidade é confundir, sacudir, desvirtuar, profanar, bagunçar. E as pessoas amam isso. Elas amam de verdade.
Ninguém tem coragem de fazer isso consigo mesmo. É muito doloroso, difícil fazer esse processo de duplipensamento - desconstruir conscientemente o que está inconsciente, sem se dar conta do processo. É tipo placebo, não funciona se a pessoa sabe que é pílula de açúcar.
Eu sou aquela criança que chega pra tentar melhorar o desenho do colega e rabisca tudo por cima.
Eu sou aquela pessoa que chega pra tentar ajudar você a encontrar o que perdeu e te ajuda a encontrar o que você não tinha perdido.
Eu sou assim, furacão. Nem sim nem não. Só confusão.
Alguns tentam me entender. Eu já desisti. Sou assim, Amanda, amada, amores.
Eu sou o degrau que todo mundo tem medo de subir, mas esse é meu propósito.
Tô aqui pra ser pisada, pra te elevar.
Desisti de me entender, mas de alguma forma, faço os outros se descobrirem no meio da minha bagunça. Dá pra entender?
Não, né.
Dizem que sou brilhante. Não entendo. Parei com essa mania de tentar entender (bem, não. Não parei. Mas quem sabe se eu disser isso um certo número de vezes se torne verdade, né) mas não sei o que fazer com isso.
Sabe aquele cachorro acostumado a viver no mato que é trazido pra casa e não sabe o que é comida de gente humana?
O que eu faço com isso, querido correspondente? O que eu faço com essa brilhanteza que me foi atribuída?
Talvez eu seja muleta. Uma muleta muito brilhante, por algum motivo.
Você sabe melhor que eu que sou masoquista. Gosto de ser degrau.
Mas será que isso é saudável pra mim? É isso que sempre fui, não sei ser outra Amanda.
Não sou altruísta nisso. Ajudo, ajudo, ajudo e tiro minha satisfação de tudo isso.
Cabala? Como era mesmo, os dois caminhos? Ou eram três?
Se há algum caminho certo pra eu estar, espero que minha bússola esteja funcionando.
Ou você terá que ser minha muleta. Meu degrau.
Quem me conhece, sabe. Mas, sabe o que? Eu não sei, me diga você.

Amanda, who?

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Mágoa

Você sabe que nesses cinco anos de amizade você deixou várias marcas em mim.
Eu sei que sabe.
Você me tirou da beira do precipício quando eu já estava pronta pra pular.
Você me mostrou o mundo.
Você me mostrou a felicidade.
Você me mostrou o que é gostar tanto de alguém que dói.
Você me mostrou pureza de alma e perdão quando eu decidi fugir.
Duas vezes.
Você nunca me julgou.
Você me mostrou um montão de bandas legais e filmes interessantes.
Você me ajudou a amadurecer e me viu crescer.
Dos treze aos dezoito.
Você largou a sua namorada para ficar comigo.
Ambos sabíamos que nosso sentimento não dava pra ignorar.
E olha, eu tentei.

Conheci sua família. Uns amores.
Conheci seus amigos. Super divertidos.
Era como se eu fosse adotada por essa enorme família de gente legal e carinhosa.
A família que nunca tive.

Fizemos planos.
Viajamos juntos com nosso suado dinheiro.
Fomos ao show da minha vida juntos.
Fomos ao show de nossas vidas.
Rimos e choramos juntos.
Me abri completamente pra você.
Para meu querido anjo da guarda, minhas vísceras, com amor, Amanda.

Mas você... Ah, você era perfeito.
Um exemplo. O favorito da vó.
Lindo. Saudável. Gentil.
Um homem de sucesso.
Tudo o que qualquer garota sempre quis.

Eu sabia que cedo ou tarde você iria me trocar por alguém que não fosse quebrado como eu.
O que eu não sabia era que você iria se esquecer de cinco anos de amizade.
Eu não sabia que iria me ignorar.
Que iria me abandonar.
Eu achei que tudo tinha sido tão significativo pra você quanto foi pra mim.
Eu achei que esse tipo de amizade não se jogava fora.
Não se esquecia.

Não sabia que iria soltar a minha mão quando eu estivesse prestes a pular.

domingo, 8 de junho de 2014

Se estivesse se afogando no meio do oceano...

...conseguiria distinguir a água do sal?


quinta-feira, 5 de junho de 2014

Amor e liberdade

Se tu amas, deixe-o livre.

Amor deveria ser sinônimo de liberdade.

O medo de começar tudo novamente me paraliza.
Estava tudo indo tão bem...
Onde é que foi que errei?
Onde é que foi que cedi?

Queria tanto que entendesse.
Não sou pássaro domesticado.
Por favor, não corte minhas asas.
Por favor, não me tranque em uma gaiola.

Feridas

Da minha mãe dizendo que eu não deveria ter nascido ao professor que me humilhou na frente de toda a sala pela nota baixa: obrigada pela baixa auto-estima.
Pra todo mundo que me diz que sou bonita - só que seria mais, se emagressece alguns quilos.
Pra todo mundo que me diz que sou perfeita - mas que estrago meu rosto com esse monte de piercings.
Pra todo mundo que me diz que tem inveja do meu cabelo - mas que eu ficaria mil vezes mais bonita se eu o deixasse crescer.
Pra todo mundo que me diz que me acha atraente - só que tem vezes que me visto como puta.

Obrigada pela baixa auto-estima. Vocês quase conseguiram me matar. Mas acontece que não ligo mais pra vocês.
Resta só curar as feridas.

Eu amo Nós!

Na gaveta encontro nossos papeis avulsos.
Entre eles, quiçá, falta algo sobre a amizade.
Ou quem sabe aquela carta que nunca respondi.
Afinal, sou eu seu destinatário impossível.

A leveza de minha memória pesa hoje em recordar.
Restam palavras soltas de sentimentos tão intensos.
Ainda sinto a presença e, novamente, sinto o calor.
Daquele abraço apertado e da fumaça do cachimbo.

Uma noite que brilhou algo em mim e em você.
Brilho de uma pequena fagulha que nos aqueceu.

Serei cativo do riso envergonhado e do olhar fugido.
Da mão que cobre o sorriso e da boca aberta em gozo.
Sim, sou cativo sim. Porém, em mim há a liberdade.
Livre em relações que nos entrelaçam os nós.

Soube que para nós não houve ponto final.
Teve dois pontos. – você mesma dirá.
Pequena pausa: pensar, respirar, recriar.
Ao final, não havia o fim, somente...

***

You’re so brilliant.
Please, don’t soon forget.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Fugir

Estou com vontade de fugir.

Fugir das obrigações.
Fugir da rotina.
Fugir dos rostos conhecidos.
Fugir do bom dia dito como obrigação.
Fugir do telefone tocando, papéis voando.
Fugir do senhor diretor e de sua secretária.
Fugir do preto, branco e cinza.
Fugir da prostituição do meu tempo de vida.
Fugir do escritório - academia - cama.
Fugir do happy hour na sexta-feira, sempre o mesmo programa.

Com as mesmas pessoas, as mesmas conversas, os mesmos cenários, as mesmas vozes, envolto a um cenário monocromático-morto, cópias de cópias de cópias, coadjuvante da própria vida.

Quero fugir de mim mesma.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Quantas pessoas você cativou durante sua vida?

É claro que todos que cruzam nossos caminhos deixam alí um marca, boa ou ruim, mas realmente cativar alguém é um dom. Assim como é um dom se permitir cativar por alguém.
Mais que um livro infantil, O Pequeno Príncipe contém um significado para se levar pra vida. Não o vejo como um livro para crianças, e sim, um livro para olhar com olhos de criança.
E foi então que apareceu a raposa:
- Bom dia, disse a raposa.
- Bom dia, respondeu polidamente o principezinho que se voltou mas não viu nada.
- Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira...
- Quem és tu? perguntou o principezinho.
Tu és bem bonita.
- Sou uma raposa, disse a raposa.
- Vem brincar comigo, propôs o princípe, estou tão triste...
- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa.
Não me cativaram ainda.
- Ah! Desculpa, disse o principezinho.
Após uma reflexão, acrescentou:
- O que quer dizer cativar ?
- Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras?
- Procuro amigos, disse. Que quer dizer cativar?
- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa.
Significa criar laços...
- Criar laços?
- Exatamente, disse a raposa. Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos.
E eu não tenho necessidade de ti.
E tu não tens necessidade de mim.         
Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás pra mim o único no mundo. E eu serei para ti a única no mundo... Mas a raposa voltou a sua idéia:
- Minha vida é monótona. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei o barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora como música.
E depois, olha! Vês, lá longe, o campo de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelo cor de ouro. E então serás maravilhoso quando me tiverdes cativado. O trigo que é dourado fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento do trigo...
A raposa então calou-se e considerou muito tempo o príncipe:
- Por favor, cativa-me! disse ela.
- Bem quisera, disse o principe, mas eu não tenho tempo. Tenho amigos a descobrir e mundos a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não tem tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres uma amiga, cativa-me!
Os homens esqueceram a verdade, disse a raposa.
Mas tu não a deves esquecer.
Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.