É verdade que algumas mulheres se sentem bem em receber apelidos carinhosos – os chamados “pet names” – mas eu gostaria de oferecer outra visão sobre esse ato, a visão de quem não gosta de ser tratada dessa forma.
Contextualizando, vivemos em uma sociedade patriarcal que tem como característica marcante a dominação do sexo masculino sobre o feminino, em inúmeros campos (sexualmente, profissionalmente, socialmente, politicamente, economicamente etc.).
Não há como discutir que a linguagem é uma poderosa ferramenta.
Em 1984, escrito por George Orwell, a língua como uma ferramenta opressora e restringente é claramente ilustrada pela Novilíngua.
Em suma, a Novilíngua é uma linguagem que estava sendo criada, mas ao contrário da criação de outras linguagens onde se criam palavras, o objetivo do governo era destruí-las. Queimando a ponte entre pensar e fazer, limitando o vocabulário com o tempo se limitaria o pensamento. (Rápido, tente pensar em uma cor que não existe!)
Esse trecho retirado do apêndice de 1984 ilustra bem o propósito da Novilíngua:
“O propósito da Novilíngua não era apenas fornecer um modo de expressão para a visão de mundo e hábitos mentais próprios aos devotados à Ingsoc, mas fazer todas as formas de pensamento impossíveis.”
Em Linguagem e História: a manipulação do passado através da palavra
em 1984 de George Orwell, Anderson coloca:
“De todos os processos repressivos usados pelo Partido, talvez seja a Novilíngua o mais abrangente. Ao influenciar o aspecto cognitivo da população, o Partido pretende restringir o que um indivíduo é capaz de enunciar e, por conseguinte, não conseguir construir um raciocínio lógico sobre aquilo que não consegue comunicar. Assim sendo, o projeto da Ingsoc que tem a ortodoxia como regra fundamental, afeta não apenas a linguagem como instrumento de comunicação, mas a própria realidade que é comunicada no processo da fala e escrita.”
Deu pra entender que a linguagem é uma ferramenta que pode ser usada para tanto para abrir novos horizontes, como para cercear outros, não?
Pois bem, o fato é que nossa linguagem é sexista.
Ticiane, do Blogueiras Feministas, coloca:
“Segundo Mikhail Bakhtin, temos a “influência da cultura sobre a linguagem, com a ação da linguagem sobre o desenvolvimento da cultura”“. O que é de certa forma preocupante, porque caso não venhamos a nos empoderar das palavras este ciclo pode nunca ser quebrado, pois é através delas que pensamos.
(...)
Essa “regra geral” gramatical, de que o plural é masculino, contém mais uma característica que considero perigosa. É uma regra que pressupõe sermos todos iguais, mas não somos e sabemos disso. Mulheres ganham menos que os homens. Somos, em maior número, vítimas de violência doméstica. Convivemos com jornadas duplas e triplas, além da divisão sexual do trabalho. Porque, os filhos, literalmente, são da mãe!
(...)
A Cia Kiwi de Teatro, com a peça Carne – Patriarcado e Capitalismo, faz uma análise fantástica sobre a violência de gênero, mostrando, inclusive que a flexão de gênero de determinadas palavras nem sempre conota a mesma coisa, muito pelo contrário:
“Homem Público: homem que ocupa um papel social importante; Mulher Pública: Puta!
Vadio: que não faz nada; Vadia: Puta!
Atirado: Disponível, impetuoso; Atirada: Puta!
Atrevido: Ousado; Atrevida: Puta!
Um qualquer: fulano, beltrano; Uma qualquer: Puta!””
Sim, nossa linguagem é sexista e oprime as mulheres cotidianamente sem que (quase) ninguém se dê conta.
E um dos meios é o “apelido carinhoso”.
Primeiro que metade deles se refere a minha suposta “beleza” e eu, ao lado de várias outras mulheres, detestamos ser lembradas que estamos sendo avaliadas por quão “bonitas” somos. É quase como dizer “Boa garota, você está dentro dos padrões que os homens gostam e criaram para você, agora tó aqui seu biscoitinho!”.
Ainda mais quando esses “elogios” são precedidos de pronomes possessivos.
Minha. MINHA. MINHA.
Eu sei, eu sei, a tia Amanda tá sendo “radical de mais”. Pronomes possessivos servem também para indicar relação, quando você diz “minha mãe” você não tá querendo dizer que você POSSUI sua mãe, NE? NÉ???
Só que é essa a sensação que me passa. Desde um completo estranho ou um amigo me chamando de “minha linda” o que me passa na cabeça é que daqui a pouco eles vão me chamar de boa garota e me dar um biscoito.
Aí vêm os apelidos infantilizadores. Ah céus, os apelidos infantilizadores.
Mocinha, lindinha, docinho, florzinha, gatinha, queridinha... INHA. PARE! Eu não faço parte das meninas superpoderosas, ok?
Pare de usar diminutivos ao se referir a mim. Simplesmente pare.
Esses “apelidos carinhosos” ajudam a reforçar todos os estereótipos negativos atribuído às mulheres, como “meu anjo”, “minha rainha, “princesa” etc.
Não somos seres frágeis, não nos coloque num pedestal, não somos rainha, princesa, anjo. Não somos símbolos de pureza imaculada. Somos seres humanos.
Por favor, reveja A QUEM você se refere e com QUAIS TERMOS.
Sua namorada não liga? Ok. Sua mãe acha fofo? Tá bom.
Sua funcionária ou colega de trabalho provavelmente vai achar muito rude da sua parte.
A completa estranha na rua também.
A mulher que você acabou de conhecer pode te achar um completo babaca por isso também.
Por favor, antes de falar, PENSE.