Tudo começou quando ele me pediu um beijo.
Na verdade, não foi um pedido. A promessa ficou subentendida.
O que ele fez foi me confessar suas intenções da forma mais bonita e sincera. E triste.
Era uma noite fresca e tínhamos saído com uns amigos.
Eu não o conhecia. Ele não me conhecia.
Quer dizer, éramos conhecidos, mas nada além disso.
Veja bem, eu estava em uma depressão profunda na época.
Na realidade, tinha acabado de decidir sair do meu quarto escuro pela primeira vez em um mês e fui visitá-los.
Tudo estava indo bem, o fim de semana estava sendo animado e eu estava rindo - pasmem, rindo!.
Até que o gatilho foi acionado.
Tenho até vergonha em contar isso, pra falar a verdade, mas contarei assim mesmo.
Estávamos no carro, F. estava dirigindo e B. no passageiro. Eu, atrás.
F. estava dirigindo rápido, e como eu nunca gostei dessa sensação, tive medo.
Tive medo e gritei.
Acabei com o clima da conversa, de tudo.
Me olharam com repreensão nos olhos.
E eu me envergonhei.
Não porque eu havia gritado. Mas porque eu não sabia por que motivo havia gritado.
O silêncio foi absoluto até nosso destino.
Minha cabeça estava um turbilhão de pensamentos.
Porque havia eu gritado?
Porque aquele reflexo inconsciente de gritar?
Tinha eu medo? Não, não... Medo de que? De morrer?
Eu não tinha medo de morrer.
Na
verdade, se eu morresse alí, naquela hora, naquele momento, eu ficaria
feliz - se é que pode-se ficar feliz após sua própria morte.
Foi isso. Percebi que desejava morrer.
E que aquele grito desconfortável foi apenas um reflexo, um hábito adiquirido com o tempo, memória muscular.
Me senti minúscula.
E me fechei no meu pequeno grande mundo interior.
Claro que todos ficaram assustados.
Só posso imaginar minha feição - olhar distante, rosto pálido, expressão vazia.
Mas eu estava pensando, e estava pensando em tudo de uma vez só.
A vida vale a pena?
O que faz com que eu prefira viver a morrer - ou morrer a viver?
Seria aquele fim de semana de risadas apenas uma mentira bem contada a fim de me fazer acreditar que poderia ser feliz?
A quem eu estava enganando? Estava eu enganando alguém? Ou estaria enganada em pensar que aquilo era um engano?
O que fazer quando se sente alheia à tudo? Alheia até a sua própria existência?
Quando foi que deixei de sentir prazer? Como foi? Porque?
B. percebeu algo - não sei exatamente o que - e me chamou para conversar, fora do estabelecimento.
E ele me disse muita coisa - e é claro que não me lembro. Mas ouviu muito mais.
E eu falei sobre tudo o que me vinha à mente e o coitado lá, a ouvir.
Chorei, tive raiva, quase gritei.
E ele fez algo que me deixou muito tranquila - disse o que pensava, foi sincero.
Quando lhe perguntei qual o sentido da vida, ele não me respondeu com frases vazias de auto-ajuda barata.
Ele disse o que pensava.
E isso me acalmou.
Ficamos um tempo mais conversando, agora um pouco mais tranquila e entramos.
Nos perdemos de F., então fomos arranjar um canto para nós.
Sentamos e conversamos e fumamos o cachimbo emprestado de F.
E naquele momento eu me senti menos vazia. Menos sozinha. Menos alheia.
Não me lembro da conversa - e isso é um defeito meu que detesto.
Mas, pensando bem, eu nunca me lembro das palavras. Me lembro muito bem dos sentimentos.
Me senti compreendida, me senti amparada, acolhida, importante - para um estranho conhecido.
Ao
final da noite, quando fui me despedir de B., ele me disse - novamente,
parafraseando pois não me lembro das palavras certas - que essa noite
ele queria um beijo.
Não disse só isso, disse que queria um beijo,
mas que percebera que seria melhor deixar esse gesto para um dia em que
não tenhamos apenas nossa dor para compartilhar.
Foi aí onde tudo começou.
Não sei exatamente o que, mas não importa.
Maldita mania minha de tentar entender tudo.
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