sexta-feira, 5 de setembro de 2014

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Como é que a gente começa essas coisas, hein?
Na escola aprendi a escrever cartas, mas, bem... Elas sempre tinham um destinatário.
Começavam com o lugar e a data de onde escrevia e, bem... Não sei onde estou e nem que dia é. Acho que é Março.

Algum lugar no oceano, algum dia do mês de Março (talvez) de 2014.

Querido destinatário,

Cheguei à conclusão de que não tenho mais esperanças de deixar essa ilha.

A ilha, apesar de muito bonita, é escassa de recursos dos quais eu possa usufruir.
Por exemplo, ontem comi dois cocos e um punhado de amoras. Eu poderia até caçar, mas... Bem, eu não sei caçar e muito provavelmente seria morta pelos animais selvagens.

Água é outra coisa muito complicada por aqui. Deve haver algum riacho lá pro meio da mata selvagem, mas, como expliquei anteriormente, tenho medo dos animais. E toda a água que cerca a ilha é salgada. Eu até criei um sistema para coleta de água de chuva, mas faz três dias desde a última chuva e minha reserva se esgotou.

Os insetos aqui são o pior! É cada borrachudo graúdo que você não tem noção. E é claro que não tem repelente. Eu até aprendi uma vez a fazer um repelente natural com cravos, mas, não tenho cravos aqui comigo.

Fora todo esse pessimismo a ilha é muito bonita, a vegetação aqui é bem diversa e, como todo mundo que me conhece sabe, eu adoro verde.
É realmente muito prazeroso observar as ondas cristalinas do mar, a areia tão branquinha que chega até a refletir o sol e machucar os olhos. Se banhar na água morna sob o sol quente e depois ir descansar numa sombra criada pela vegetação fria. Sabe, é quase um paraíso.

Mas... Estou sozinha. Estou quase no nível dO Naufrago criando um amigo imaginário pra conversar comigo. Se bem que, todas essas cartas que eu envio não passam de uma desculpa esfarrapada pra conversar com um destinatário invisível.
Não há animais domesticáveis por aqui, então não posso nem contar com essa. Seria menos vergonhoso conversar com um macaco, ou um porco, sei lá, do que com um coco. 

Enfim, eu converso com o papel.

Sorte minha ter trazido tantos cadernos e algumas canetas. E olha que eles nem ficaram tão danificados pela água. O meu azar são as garrafas, que eu tenho que esperar pela boa vontade do mar me trazer. Mas eventualmente elas vêm e aí eu escrevo e envio de volta.

Eu vivia uma vida bem simples antes de vir parar aqui, sabe? Mas bem monótona também. Eu trabalhava, estudava... Sabia que eu estudava psicologia? Legal, né? Pena que não é muito útil sozinha numa ilha deserta... Enfim, estudava, de vez em quando praticava algum exercício, escrevia... Ah, eu tinha até um blog! Um blog que eu odiava, com certeza, e também ninguém lia... E, bom. Essa era minha vida. O que eu mais gostava eram meus amigos. Não tinha muitos, assim, verdadeiros, sabe? Mas adoro conhecer gente nova.

Caramba, até me esqueci. Prazer, meu nome é Cat. Catarina.

Parece até que eu vivia essa vida cíclica de obrigações de gente grande e era tudo tão chato, monótono, monocromático... Mas meus amigos estavam lá pra me tirar do ciclo e colorir um pouco minha vida. Sinto a falta deles...

Eu estava numa fase da vida em que eu queria conhecer o mundo, viajar! Fui fazer um cruzeiro e, bem... Já dá pra ter uma ideia do motivo d’eu estar numa ilha deserta.

O engraçado é que a gente quer sempre se livrar da rotina de gente grande, mas, quando você está num lugar paradisíaco, sem obrigações, sem gente chata, sem... ninguém. Você se sente tão sozinho que dá até vontade de voltar praquela rotina chata, só pela interação humana.

Será que todo mundo se salvou? Será que todo mundo morreu?
Será egoísmo meu desejar que pelo menos uma daquelas centenas de pessoas tivesse ficado aqui comigo, na ilha?

Bom, de qualquer forma. Obrigada por conversar comigo.
Quando tiver um tempinho, me escreva de volta. Vai que, né? Nunca se sabe.
Ou até melhor, venha me visitar.
Até logo, querido destinatário.
Foi um prazer te conhecer.

Cat.

Um comentário:

  1. Querida Cat, eu queria ter esperanças de estar nesta ilha como você. Ou talvez com você. Apesar de não gostar de coco eu adoro amoras! Eu também não sei caçar mas não tenho medo de animais selvagens. Convivo com eles o tempo todo. Achei interessante que tenha criado um sistema de coleta de água, estamos precisando de uma coisa assim por aqui...
    Talvez eu envie cravos na garrafa pra você.
    Invejo seu habitat paradisíaco. O mar, o sol, a areia, a brisa, a sombra, a vegetação... a solidão.

    As coisas por aqui continuam na mesma. Estudo, trabalho... Monótono. Monocromático. Chato. Sem boas novas. Os amigos cada vez mais escassos. A interação humana é cansativa. Quem sabe você não aproveita o paraíso para promover a interação consigo mesma?

    Foi um enorme prazer te conhecer.
    Até logo, querida Cat.

    Ps.: Eu leio o seu blog.



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