Perdida em seus sonhos e medos, Anna andava sem rumo em seu quarto.
O quarto estava uma bagunça caótica: roupas por todos os lados, objetos espalhados pelo chão e pela cama, sacos de lixo acumulavam-se atrás da porta.
Já fazia quase um mês que Anna não saía do seu quarto. Tinha tudo o que precisava ali.
O banheiro do quarto-suíte não a obrigava a enfrentar o mundo fora de seu quarto.
Comia apenas junk-food. Abriu o saquinho, comeu, jogou. Acabou.
A água era a da torneira mesmo; já bebeu tanta água de torneira quando criança e nada de mal a aconteceu.Tinha estocado maços de cigarros então não precisaria sair de lá para comprar tão cedo.
Estava segura.
Não se sentia segura.
Estava em constante pavor. De que, nem Anna saberia dizer.
Sair do quarto e enfrentar o mundo ou ficar enfiada no seu quarto pro resto da vida? Ambas ideias apavoravam Anna, porém sair de sua zona de conforto a apavorava ainda mais.
Não tinha certeza quando aquilo começara. Aquela pequena mancha negra que aos poucos se alastrou e tomou conta do espírito de Anna. A enegreceu por completo.
A encheu de vazio.
Dois sentimentos eram presentes quase que constantemente: a preguiça e o medo.
Não tinha forças suficientes para sair daquele buraco; por isso transbordava insegurança.
Passou algumas horas no computador, porém estava entediada e o tédio era isca para seus pensamentos mais assustadores.
Começara a caminhar em círculos pelo quarto, desviando de eventuais móveis ou das pequenas montanhas de roupa.
Seus joelhos doíam e estava se cansando de fazer sempre o mesmo trajeto circular, como um animal impaciente e estressado numa minúscula jaula de zoológico.
Sentou-se na cama. Acendeu um cigarro e inspirou a fumaça quente. Pensava em tudo mas não pensava em nada. Não aguentou, se levantou e foi beber água.
Com a mão em forma de concha, curvada sobre a pia como um animal roubando água para matar a sede de dias quentes, bebeu alguns goles de água e olhou para seu reflexo no espelho.
Cabelos sujos, emaranhados, bagunçados. Olheiras enormes que delineavam claramente seus olhos grandes e vermelhos de insônia, pupilas dilatadas como nunca se viu. A boca, seca e coberta de rachaduras. Seu rosto era pálido, com bochechas e nariz rosados, como numa febre. Feição assustada, como se não reconhece seu próprio reflexo.
Logo o rosto assutado se transformava novamente em expressão desdenhosa e Anna bebeu mais alguns goles de água. Fechou a torneira e não se incomodou em secar as mãos.
Sentou na cadeira do computador e fitou a tela por alguns minutos; não sabia o que fazer.
Sua atenção foi roubada por barulhos em seu apartamento. Já não sabia mais quem era. Ou se era alguém. Se era algum dos meninos com quem morava; se é que eles ainda estavam lá. Se era um intruso. Não era isso que faria Anna abaixar seu escudo. Logo esqueceu-se de ouvir e voltou a fitar a imensidão.
Tentou encontrar algo que a distraísse de seus pensamentos, mas sem sucesso. Nenhuma das redes sociais lhe chamava a atenção. Tentou assistir vídeos mas eles não a interessavam. Botou um filme pra tocar, mas assitia sem ver - estava em outro mundo.
Pegou o celular e o olhou fixamente. Talvez tenha esquecido o que iria fazer; talvez nunca tivesse sabido.
Abriu as mensagens: sem resposta.
Mandou uma última, por desencargo de consciência, e se deitou no escuro.
Não conseguia dormir. Tinha vontade de pular da janela. De sair na rua em plena madrugada gritando a todo pulmão e correndo para algum lugar que iria ainda descobrir.
Levantou-se e sentou-se novamente na cama. Desligou o celular e apoiou os rostos nas mãos, como se envergonhasse daquela situação.
Levantou e se dirigiu à gaveta de remédios. Pegou dois comprimidos; um amarelinho e um branquinho.Foi até o banheiro e com ajuda de um gole d'água engoliu o primeiro.
Voltou para a cama e deitou num só movimento desajeitado.
Colocou o segundo comprimido embaixo da língua e esperou.
Já sentia o comprimido derreter, como açúcar, e amargar a boca.
Havia encontrado algo em que se entreter. Manter os restos do comprimido embaixo da língua, impedir a saliva de se acumular e levar o remédio dali e se concentrar na leve dormência que começava a se espalhar pela língua.
Logo estaria dormindo. Não sonharia nem acordaria durante a noite.
Um torpor libertador.
- Será que se eu tomar a cartela inteira desses branquinhos redondinhos eu consigo dormir por mais tempo? 12 horas está sendo pouco, ultimamente.
E
nquanto seu coração desacelerava o ritmo ansioso e seus músculos começavam a relaxar a tensão, Anna deixou seus pensamentos correrem livres.
Pensava em como o sono é libertador.
Pensou em sua mãe, que sempre dizia que os mortos estavam dormindo num sono profundo e acordariam quando Deus ou sei lá quem decidisse que era a hora de acordar.
- Acordar para o reino de Deus, ou será que o nome era paraíso? Isso, paraíso. Vida eterna, deus me livre. Quem gostaria de viver essa eterna angústia? Eu certamente que não. O maior erro de Deus seria me acordar dessa recompensa pelos anos cansativos e angusiantes de vida.
Morrer seria libertar-se.
Libertar-se do peso que era ser Anna.
Abriu os olhos e já era de manhã.
Anna acordava de seu sono para viver novamente seu pesadelo.
Se ao menos tivesse a coragem...
Nenhum comentário:
Postar um comentário