O homem de jaleco branco entra na sala.
Está tão frio. Estou tão fria.
Ele não parece ser médico, mas ainda assim usa esse jaleco estúpido.
Está tão escuro, não consigo me mover.
O vejo em terceira pessoa, mas não consigo me ver. Como se não estivesse na mesma sala. Como em sonho.
Ele passa pelas mesas de metal enfileiradas na sala fria e começa a organizar várias ferramentas perfuro-cortantes em uma mesinha móvel, ao lado de uma das mesas.
Agulha de sutura, talhador de costela, enterótomo, cinzel de crânio, pinça dentada, tesoura, serra de osso...
De repente sinto meu corpo se movendo e uma luz branca me atinge forte no rosto e, apesar dos olhos fechados, eu consigo perceber a mudança.
Um zumbido eletrônico penetra meus ouvidos e o vejo me retirando de uma espécie de gaveta.
Sou transportada para uma das mesas de metal e apesar de ter ciência de que as mesas estão geladas, as encontro numa temperatura confortável.
Está tudo tão calmo.
Com a delicadeza de um artista ele manuseia o bisturi e corta meu peito em Y.
Analisa meu corpo como um amante apaixonado, passando os dedos pelo meu pescoço, logo pelo tórax até os dedos do pé. Anota tudo numa prancheta ao lado.
Um a um ele tira meus órgãos e os enfileira na mesa, cada um com sua anotação.
Coração grande. Ligeiramente leve. Aparência velha e cansada. Cicatrizes indicam ferimentos anteriores.
Pulmões escurecidos. Tabagista compulsiva, ansiosa e depressiva. Estrias sugerem que sofria de falta de ar.
Estômago. Análises internas mostram borboletas e bile, contradizendo-se em euforia e amargura.
Fígado sobrecarregado por abuso de álcool.
Ele retira e analisa todos os órgãos restantes e não encontra nada anormal. Os coloca delicadamente de volta e eu me comovo com o carinho dado a cada um deles.
Montada como um quebra-cabeças com perfeição, ele parte para meu crânio e retira a tampa, expondo meu cérebro.
Cinza. Cansado. Morto.
O retira para análise e conclui a causa mortis.
Amava de mais. Pensava de mais.
Afogava-se de mais em afetos.
Machucava-se com as dores do mundo.
Carregava depressão sobre os ombros.
Via o mundo pelos olhos de uma criança.
Morreu de amor e desgosto.
Morreu chorando.
Morreu humana.
Está tão frio. Estou tão fria.
Ele não parece ser médico, mas ainda assim usa esse jaleco estúpido.
Está tão escuro, não consigo me mover.
O vejo em terceira pessoa, mas não consigo me ver. Como se não estivesse na mesma sala. Como em sonho.
Ele passa pelas mesas de metal enfileiradas na sala fria e começa a organizar várias ferramentas perfuro-cortantes em uma mesinha móvel, ao lado de uma das mesas.
Agulha de sutura, talhador de costela, enterótomo, cinzel de crânio, pinça dentada, tesoura, serra de osso...
De repente sinto meu corpo se movendo e uma luz branca me atinge forte no rosto e, apesar dos olhos fechados, eu consigo perceber a mudança.
Um zumbido eletrônico penetra meus ouvidos e o vejo me retirando de uma espécie de gaveta.
Sou transportada para uma das mesas de metal e apesar de ter ciência de que as mesas estão geladas, as encontro numa temperatura confortável.
Está tudo tão calmo.
Com a delicadeza de um artista ele manuseia o bisturi e corta meu peito em Y.
Analisa meu corpo como um amante apaixonado, passando os dedos pelo meu pescoço, logo pelo tórax até os dedos do pé. Anota tudo numa prancheta ao lado.
Um a um ele tira meus órgãos e os enfileira na mesa, cada um com sua anotação.
Coração grande. Ligeiramente leve. Aparência velha e cansada. Cicatrizes indicam ferimentos anteriores.
Pulmões escurecidos. Tabagista compulsiva, ansiosa e depressiva. Estrias sugerem que sofria de falta de ar.
Estômago. Análises internas mostram borboletas e bile, contradizendo-se em euforia e amargura.
Fígado sobrecarregado por abuso de álcool.
Ele retira e analisa todos os órgãos restantes e não encontra nada anormal. Os coloca delicadamente de volta e eu me comovo com o carinho dado a cada um deles.
Montada como um quebra-cabeças com perfeição, ele parte para meu crânio e retira a tampa, expondo meu cérebro.
Cinza. Cansado. Morto.
O retira para análise e conclui a causa mortis.
Amava de mais. Pensava de mais.
Afogava-se de mais em afetos.
Machucava-se com as dores do mundo.
Carregava depressão sobre os ombros.
Via o mundo pelos olhos de uma criança.
Morreu de amor e desgosto.
Morreu chorando.
Morreu humana.